Quantas verdades ainda permanecem escondidas dentro de casa? Onde há silêncio, a violência encontra espaço para se perpetuar. Quando há escuta, nasce a possibilidade de transformação. Entre esses dois caminhos, milhares de mulheres enfrentam diariamente a difícil decisão de falar — e de confiar que serão acolhidas. Em um país no qual a violência contra a mulher insiste em se repetir, romper o silêncio não é apenas um ato de coragem, é um direito humano fundamental.
Vamos chamá-la de Elisabeth. Seu nome verdadeiro não importa tanto quanto sua força. Houve dias em que tudo o que ela conseguia fazer era chorar, em silêncio. Sempre em silêncio, como se até a dor precisasse ser escondida para não parecer fraqueza. Por 18 anos, ela acreditou que se calar era a única forma de proteger quem amava. Enquanto isso, o sofrimento crescia por dentro — invisível, profundo e solitário. Falar parecia impossível. “Foi um fardo que eu carreguei por muito tempo sozinha. Arrependo-me muito de não ter falado nada. Mas fiquei calada e reprimida, porque tinha minha avó”, relata, ao reconhecer que guardou o segredo sob a pressão de manter aparências e evitar o julgamento alheio já que as violências ocorreram no próprio círculo familiar. O que ela viveu é o reflexo de uma ferida social profunda que, muitas vezes, naturaliza o sofrimento e desacredita a angústia da mulher.

“Eu não tinha brilho nem sorriso e ficava quieta. Aceitava tudo e, hoje, sei dizer não”, conta a moradora de Águas Lindas/GO. A trajetória de Elisabeth revela que o silêncio não é uma escolha individual, mas uma barreira sustentada por camadas de desigualdades. Dados do Observatório da Mulher contra a Violência (OMV/DataSenado), corroborados pelo Atlas da Violência e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, confirmam que, embora a violência doméstica atravesse todas as classes sociais, encontra solo fértil onde a vulnerabilidade se acumula. Mulheres negras, moradoras de periferias e aquelas desprovidas de redes de apoio enfrentam obstáculos adicionais que tornam a denúncia um caminho tortuoso. Para muitas, o medo de romper o silêncio é amplificado pela dependência econômica e pelo peso de normas culturais que ainda normalizam o abuso. Nesses contextos, o “manter as aparências” deixa de ser uma escolha e torna-se uma trágica estratégia de sobrevivência.
A coragem de dizer: “Não é não!”
“Carregar esse peso de ter que ficar em silêncio só prejudica a vítima, que não tem culpa”, reflete Elisabeth. Foi por meio da indicação de sua tia que ela encontrou no programa Ser Mulher, da Legião da Boa Vontade (LBV), o suporte necessário para reconhecer seus direitos e resgatar sua autonomia. “Quando conheci o programa, entendi que aquilo que vivia não era uma carga minha, nem algo que precisasse suportar. Não eram culpas minhas, mas de outros. Eu carreguei esse peso para proteger outras pessoas e famílias, sendo que, na verdade, a maior prejudicada era eu.”

A iniciativa atua no enfrentamento às diversas formas de discriminação, ao sexismo e às violências de gênero, ao mesmo tempo em que promove a compreensão dos impactos emocionais dessas vivências. Por meio de um acompanhamento qualificado, favorece o autoconhecimento, a recuperação da autoestima e a ressignificação de histórias marcadas por violações, contribuindo também para o rompimento do ciclo de violência contra a mulher e o fortalecimento de trajetórias mais seguras e independentes.
Nesse sentido, o programa da LBV oferece suporte psicológico individual a mulheres gratuitamente em todo o território nacional, com atendimentos disponíveis tanto no formato presencial quanto on-line. O serviço é prestado por um corpo técnico de psicólogas da Instituição e profissionais voluntárias, todas rigorosamente selecionadas pela equipe de Ações Humanitárias da Entidade.
Foi durante os atendimentos de Elisabeth que, mais do que palavras, vieram as lágrimas — um desabafo necessário para quem viveu em depressão, sentindo-se só e culpada. E, pela primeira vez em muitos anos, elas não precisaram ser escondidas. Em um espaço seguro de escuta qualificada e acolhimento, ela compreendeu que o silêncio não protege, mas aprisiona; que carregar sozinha essa dor só perpetua o sofrimento e que sua voz tem valor.

Em entrevista à revista BOA VONTADE, define o rompimento desse ciclo como um processo libertador. “Quando decidi abrir o jogo e falar tudo, comecei a sentir um alívio”, revela. Embora expor sua verdade não apague o passado, esse passo abre caminho para um futuro em que nenhuma mulher precise enfrentar o abuso em isolamento.
Hoje, Elisabeth ressignifica sua história e fortalece um compromisso inegociável consigo mesma e com a filha: ensinar que nenhuma mulher deve se calar diante da violência. “Trazer a verdade é dar oportunidade para quebrar esse ciclo e evitar que tenhamos mais vítimas”, afirma. Nesse sentido, é clara em seu recado para quem está passando por situação semelhante: “não deixe o seu medo te dominar. Seja você a protagonista da sua história. Você terá julgamento de todos os lados, tanto do agressor quanto de quem não acredita. Então seja você, mas seja firme. Denuncie, vá atrás do seu direito. Mulheres: não calem sua voz!”. É a transformação da estatística em cidadania, garantindo que o direito de viver sem medo seja uma realidade acessível a todas. Ao acolher mulheres como Elisabeth, a LBV reafirma seu propósito: oferecer um braço estendido a quem, por questões de raça, classe ou geografia, foi historicamente deixada à margem da proteção.